
Sempre pensei que viver no Deserto era fácil. Quentinho durante o dia, fresquinho à noite, um pouco de pó e de areia. Estava muito enganado. O que mais custa é suportar a paisagem. Para onde quer que olhemos, o horizonte é sempre igual, areia e mais areia.
Esta travessia do Deserto não estava a revelar-se fácil.
É difícil manter o moral elevado quando andamos a vaguear sozinhos na areia quente e incómoda. Tentei desesperadamente contratar um ou mais guias, mas nem os camelos me quiseram acompanhar. No entanto, decidi prosseguir, porque no Deserto, mais do que noutro lado qualquer, parar é morrer, sobretudo quando já percorrermos uma distância considerável.
Também fui enganado com aquela história de ir para o Deserto meditar. No meio do nada, a única coisa que nos passa pela cabeça é voltar para o tudo.
Exemplo desta agonia foi a experiência que tive. Seguia protegido pelo Jilab, louco da vida e farto da porcaria da areia quando avistei ao longe uma forma difusa que bailava ao sabor das ondas de calor. Apresentava uma cor alaranjada e tinha um ar apetitoso. Quanto mais me aproximava, mas nítido ficava aquele estranho objecto. Não queira acreditar no que via. Tinha dez andares de altura e mais de 20 metros de largura, era um gigantesco Jellyjah. Corri como um louco para o alcançar, mas ele brincava comigo, afastava-se, até que acabou por desaparecer. O Jellyjah era apenas uma miragem. Tinha evaporado sob aquele sol impiedoso.
Vi-me a chorar como uma criança a quem roubam o chupa-chupa. Aquela miragem avivou-me a memória de tempos de abundância no Reino de Jellyjah. Mas a realidade era agora dura e implacável. O calor desencadeou a seca desértica. É preciso caminhar muito para encontrar pequenos oásis. Fiquei fulo, quando percebi que para além do Ferrero Rocher e do Mon Cherie, também o Jellyjah se retira no Verão.
PS: Depois da Alegoria da Caverna de Platão, ofereço-vos a Alegoria do Deserto Jellyjah por RC.